O repasse de R$ 10 milhões em emenda parlamentar ao município de Choró, no interior do Ceará, colocou o deputado federal Yury do Paredão (MDB-CE) no centro de um dos episódios mais graves investigados pela Polícia Federal envolvendo suspeitas de desvio de recursos públicos. Segundo relatórios enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF), o montante teria sido transferido em 2024 por meio da chamada “emenda Pix”, modalidade que permite repasses diretos sem necessidade de convênio formal — um mecanismo frequentemente criticado pela baixa rastreabilidade. A investigação aponta que os recursos foram destinados a uma cidade com cerca de 12 mil habitantes, administrada à época por Bebeto do Choró (PSB), atualmente foragido e investigado por crimes como abuso de poder econômico, compra de votos e possível envolvimento em um esquema de corrupção. Indícios de controle e uso indevido dos recursos De acordo com a Polícia Federal, mesmo após a cassação do mandato de Bebeto pelo TRE-CE, o ex-prefeito continuou exercendo influência direta sobre a gestão municipal e sobre a aplicação dos recursos públicos. Relatórios apontam que o repasse de R$ 10 milhões pode ter sido utilizado para finalidades distintas das previstas, incluindo:• Desvio de finalidade de recursos públicos• Apropriação indevida• Possível financiamento ilícito de campanhas eleitorais• Lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada A PF descreve o repasse como um mecanismo que teria facilitado o uso irregular de verbas, dentro de um esquema maior que envolveria pelo menos 51 municípios. Mensagens, assessores e “planos de ação” levantam suspeitas Entre as provas reunidas, estão trocas de mensagens e registros que indicam uma proximidade incomum entre o deputado e o grupo investigado. Um dos pontos destacados pela investigação envolve:• Contato direto de uma assessora parlamentar de Yury com Bebeto, solicitando “planos de ação” e informações sobre a execução da emenda;• Mensagens entre o próprio deputado e Bebeto, nas quais aparece a expressão “alguma cidade sua” — interpretada pela PF como indício de que o ex-prefeito exercia controle real sobre gestões municipais;• Indícios de cobrança de “pedágios” entre 12% e 15% sobre os valores das emendas, prática comum em esquemas de corrupção envolvendo recursos públicos. STF acompanha o caso e amplia investigação O ministro Gilmar Mendes, relator do caso no STF, autorizou diligências específicas sobre o deputado em 2025, destacando que a influência de Bebeto sobre a estrutura administrativa de Choró agrava as suspeitas de desvio. As investigações são desdobramentos de operações como Vis Occulta, Mercato Clausu e Underhand, que apuram um esquema estruturado de desvio de recursos federais destinados principalmente à saúde e infraestrutura. Desproporção no repasse chama atenção Outro ponto que levanta questionamentos é o volume do repasse. Para uma cidade de pequeno porte como Choró, os R$ 10 milhões em um único envio são considerados atípicos e desproporcionais, reforçando a tese de que os recursos poderiam estar inseridos em um esquema político de favorecimento e desvio. Defesa nega irregularidades O deputado Yury do Paredão nega qualquer irregularidade. Em nota pública, afirma que os recursos são legais, transparentes e devidamente registrados no Portal da Transparência, destacando que as emendas têm como objetivo contribuir para o desenvolvimento dos municípios cearenses. No entanto, as autoridades apontam que o conjunto de provas — incluindo mensagens, áudios, movimentações financeiras e depoimentos — levanta questionamentos que ainda precisam ser esclarecidos. Um caso que expõe fragilidades do sistema Para investigadores, o episódio vai além de um caso isolado e revela um problema estrutural no sistema de emendas parlamentares no Brasil. A chamada “emenda Pix”, criada para dar agilidade aos repasses, pode estar sendo utilizada como porta de entrada para esquemas de corrupção, especialmente em municípios menores, onde o controle é mais frágil. Por: Redação Caririensi