Saneamento básico é um direito fundamental e compreende quatro pilares principais: a coleta de lixo, o abastecimento de água tratada, a canalização de águas pluviais e o esgotamento sanitário. Historicamente, os dois últimos pontos são os mais negligenciados pelas autoridades. No Brasil, as ações governamentais estão entrelaçadas na lógica eleitoreira, onde para a maioria das gestões acaba valendo a máxima: “cano enterrado não dá voto”.
Os dados mais recentes sobre saneamento básico são referentes ao ano de 2023 e exemplificam essa realidade. De acordo com os números do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), o maior desafio continua sendo o esgotamento sanitário: apenas 59,7% da população total do país tem acesso ao serviço. Nas áreas rurais, o índice cai para 5,6%.
O saneamento básico, especialmente o esgotamento sanitário, é um problema social, em que o serviço avança mais rapidamente nas regiões mais desenvolvidas. Enquanto no Sudeste 80,8% da população dispõe de coleta e tratamento adequados, no Nordeste o índice é de apenas 33,8%. De cada 10 nordestinos, pelo menos 6 não têm acesso ao serviço.
No Ceará, a porcentagem de pessoas atendidas pelo serviço é parecida com o dado regional: o índice chega a 33,07%. Apesar de ser inferior à metade da população, o estado ainda fica à frente de Alagoas (20,98%), Rio Grande do Norte (25,76%), Maranhão (29,93%) e Pernambuco (29,52%).
Em 2025, o Instituto Trata Brasil analisou os indicadores do SNIS para elaborar um ranking com os 100 municípios mais populosos do Brasil. O documento leva em consideração os dados coletados em 2023, além da atribuição de pesos na evolução dos indicadores, conforme metodologia criada em parceria com a consultoria GO Associados.
Segundo o levantamento, Juazeiro do Norte está na 91ª posição, abrindo a lista das 10 cidades com pior cobertura de esgotamento sanitário. O percentual é de 27,41% da população com acesso ao serviço. No município, há ainda uma disparidade entre os bairros. Nas localidades mais distantes do centro, o índice de cobertura não chega a 1%, como no caso do bairro Pedrinhas, segundo números atualizados da Ambiental Ceará, empresa que administra o serviço.
Pedrinhas
Com uma área de 5,5 km², o bairro Pedrinhas abriga 9.840 habitantes, segundo números divulgados pelo site City Facts, com base no Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2015. A localidade está situada a aproximadamente 6 km do centro de Juazeiro do Norte, tendo como referência a Praça Padre Cícero. Os moradores do bairro Pedrinhas enfrentam graves problemas de infraestrutura, causados pelo crescimento desordenado da cidade.
O doutor em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), Edmar Pinheiro, explica que a expansão desordenada das cidades acontece com aval do poder público. À medida que o Estado é responsável por garantir a infraestrutura de energia e água, isso permite a construção de casas e a permanência de moradores em localidades de risco. O professor ressalta que, mesmo que a prefeitura de Juazeiro do Norte possua um plano de desenvolvimento racional, ele não é seguido, o que causa um problema socioambiental.
“O poder público permite que essa ocupação vá para áreas mais vulneráveis, áreas mais sensíveis ambientalmente e cria um problema socioambiental, porque você vai ter pessoas que vão estar habitando ali, pessoas que nem sempre tem a real consciência dos riscos que estão correndo. Depois o poder público não consegue oferecer, por exemplo, a expansão dessa rede de infraestrutura de saneamento básico”, disse o especialista.
o manancial de esgoto
Durante visita ao bairro Pedrinhas, um trecho da Rua Projetada, que não tem pavimentação nem meio-fio, chamou a atenção do Caririensi. A via fica paralela à Rua João Crispim, que possui residências de classe média. Essas casas despejam parte de seu esgoto diretamente em um lago, atualmente seco devido ao período de estiagem. Para o professor Edmar Pinheiro, um dos principais problemas desse despejo incorreto é a possível contaminação dos lençóis freáticos.

“Por falta de instrução, mas também por falta de oportunidade, essas pessoas vão lançar esses esgotos a céu aberto e esse esgoto vai percolar o solo, vai chegar aos lençóis freáticos e vai contaminar essa água que depois terá um custo muito maior para fazer o tratamento para que ela volte em condições de consumo humano,” explicou.
O especialista alertou ainda que boa parte da cidade de Juazeiro do Norte utiliza poços para garantir o abastecimento de água. Assim, um adensamento populacional sem a devida coleta de esgoto pode contaminar essas fontes.
Uma das casas vizinhas ao acúmulo de esgoto ainda está sendo construída. Os proprietários, que não quiseram se identificar, ao serem questionados sobre a situação, afirmaram que estão construindo duas fossas, uma para receber a tubulação dos sanitários e outra para os demais resíduos. Eles garantiram que não canalizariam a rede de esgoto da casa para o lago.
Em um cenário de baixa cobertura da rede coletora de esgoto, a fossa séptica acaba sendo uma solução utilizada por praticamente todas as pessoas que ainda não possuem o serviço em suas casas. Para Edmar Pinheiro, essas fossas são uma saída interessante porque dão uma acomodação para os dejetos, mas, quando existem muitas em uma área pequena, os riscos de contaminação dos recursos hídricos permanecem.
“A fossa séptica, ela não é, digamos assim, uma solução em definitivo, mas em áreas que você não tem a cobertura de esgotamento, ela é uma solução bastante viável, acessível para maior parte das pessoas, em termos de custo para fazer. Ela garante, em certa medida, a proteção dos recursos hídricos, mas obviamente em áreas muito densas muitas fossas sépticas também aumentam rapidamente o risco de contaminação desses recursos hídricos”, afirmou.

Outro fator que contribui para que o reservatório esteja seco é a canalização artesanal do esgoto, feita por moradores, para uma plantação de banana. Ou seja, a água suja que desce pela rua, que antes iria para dentro da pequena represa assoreada, agora é conduzida para irrigar fruteiras. A cena, de imediato, levanta questionamentos sobre possíveis riscos em consumir aqueles alimentos. Edmar Pinheiro esclarece que o risco é pequeno, mas depende dos tipos de contaminantes presentes no esgoto.

“Em regra, a ecologia dessas plantas permite um risco menor, não é um risco zero, mas elas conseguem fazer uma certa filtragem dessa água para fim de consumo da própria planta, para garantir a sua fotossíntese e o seu metabolismo, mas há sempre um risco associado. Especialmente, a depender do tipo de contaminação que ocorreu ali, portanto essas plantas vão também, em certa medida, chegando no topo de cadeia, que é o consumo humano, vai estar muito mais aguçada essa possibilidade de contaminação,” disse o professor.
Água limpa, peixe e esgoto
Próximo ao local, na Travessa Ana Maria, corria água transparente misturada ao esgoto doméstico. Segundo os moradores, essa água vem de uma nascente que cruza o bairro Pedrinhas. Ao seguir esse córrego, que passa por diversos terrenos baldios, encontramos a casa do gesseiro Cícero Batista, de 54 anos. Ele confirma que a água vem de uma nascente, uma espécie de poço (cacimbão). Segundo ele, a água permite que peixes sobrevivam no esgoto..
“Aqui é um cacimbão que tem lá para cima, escorre a água direto, água até limpa, tem até peixe dentro. A sorte é que corre essa água limpa aí, não fica o mau cheiro na rua aqui, passa o dia todinho correndo água aí”, disse Cícero.

Na Travessa Ana Maria, um riacho de água limpa misturado com esgoto cruza a rua. A casa de parede verde foi abandonada. / Foto: Renato Mendes
O doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Fábio Yamada, estuda há oito anos espécies de peixes na região da Chapada do Araripe. Ele explica que é comum em áreas de nascentes a presença das chamadas piabas ou barrigudinhos. Esse tipo de peixe é muito resistente a ambientes com alto impacto antrópico, ou seja, consegue viver em locais transformados e poluídos pelo ser humano.
“Normalmente essa espécie específica de peixe, ela é bem tolerante. Então, ela é uma bioindicadora pelo simples fato de estar presente nesse local somente ela. A gente não consegue identificar ou observar outras espécies além dessa espécie. Então, é uma espécie tolerante e que domina esses locais antropizados”, disse.
Os peixes que conseguimos ver medem apenas alguns centímetros. Há uma boa quantidade deles na área. Segundo Fábio Yamada, eles sobrevivem independentemente de contaminantes químicos. O especialista esclareceu ainda que a diminuição do mau cheiro, mencionada por Cícero, acontece devido ao fluxo contínuo de água, e não à presença de peixes.
“Não creio que essas espécies em particular de peixes, elas possam de alguma maneira auxiliar na autodepuração, que a gente chama de descontaminação dessas águas. A autodepuração se dá principalmente pela própria circulação da água”, afirmou.
Uma moradora da região, que não quis se identificar ou gravar algum depoimento com receio de ter cometido algum tipo de crime ambiental, colocou algumas das piabas em um aquário. Para Fábio Yamada, o ato não representa nenhum risco para as pessoas; o problema está no consumo dessa espécie.
“O problema seria o consumo, se por exemplo, tivesse metais pesados, por exemplo, contaminantes nessa água, existe um processo biológico chamado de magnificação trófica, em que alguns metais pesados, elas podem se acumular em tecidos e órgãos de peixes e, consequentemente, a partir da ingestão do ser humano, ele também vai acumular no corpo do ser humano. Então, o único problema seria o consumo e não a simples criação,” disse o especialista
A casa de Cícero fica na Rua Maria das Dores e foi comprada e reformada por ele em 2022. Desde então, mora com a esposa, que trabalha como empregada doméstica. O trecho em frente à residência é praticamente intransitável. Sem calçamento, ele mesmo cavou e enterrou um cano para afastar a lama da porta e conseguir entrar com sua motocicleta.

O casal enfrenta uma situação difícil, principalmente no período de chuvas. Cícero contou que já teve a casa quase invadida pela água. Ele negou danos graves à estrutura do imóvel, mas afirmou que já apareceram rachaduras na parte inferior da parede da sala. Segundo o gesseiro, isso ocorreu porque o terreno vizinho não está construído e acumula água, que infiltra pela parede. Quando foi perguntado se estaria disposto a deixar sua
“Eu não tenho para onde ir. Eu pagava aluguel já, entendeu? Aí eu consegui comprar essa casinha aqui, mas eu não tenho vontade de sair daqui não. Dê o que der, entendeu? Não tenho condições de pagar aluguel mais não”, disse ele.
O que diz a Ambiental?
O município de Juazeiro do Norte é atendido por uma parceria público-privada entre a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e a Ambiental Ceará. Atualmente, essa colaboração está presente em 24 municípios do Ceará. Segundo o coordenador de operações da Ambiental, André Ramos, Juazeiro é uma das cidades que mais receberam investimentos em 2025 para alcançar a meta de cobertura.
“Nosso foco principal é a gente ampliar a cobertura de rede de esgoto para que a gente consiga atender aos marcos legais do saneamento. É que a gente consiga chegar a 90% do esgoto sendo coletado e tratado até o ano de 2033,” disse André.
Para alcançar o alvo traçado pelo Marco Legal do Saneamento Básico de 2020, a Ambiental instalou, apenas em 2025, 100 km de novas redes coletoras. De acordo com a empresa, o serviço atende hoje 41,42% da população de Juazeiro do Norte, número superior ao divulgado pelo Instituto Trata Brasil há dois anos (27,41%), como apresentado no início desta matéria. A expectativa da Ambiental é atingir 47% de cobertura este ano, faltando apenas um mês para o fim de 2025.
Ao todo, 40.000 juazeirenses possuem coleta de esgoto, segundo a Ambiental. André Ramos explicou que a infraestrutura de tratamento e coleta de esgoto começa a ser expandida do centro em direção aos bairros mais afastados, em uma lógica de rede interligada. Em 2025, os investimentos foram voltados para bairros que, assim como as Pedrinhas, possuíam números próximos a 0% de atendimento.
“Eram bairros que tinham uma cobertura muito baixa e que a gente entrou fortemente para conseguir mudar essa realidade. Então, bairros como Frei Damião, São José, Antônio Vieira, Santo Antônio, na Vila Três Marias, também bairro Triângulo”, afirmou o porta-voz da empresa.
André Ramos ressaltou que, para chegar a bairros distantes, é necessário investir em uma infraestrutura mais complexa. Por exemplo, é preciso instalar estações elevatórias, responsáveis por transportar dejetos de locais mais baixos para outros mais elevados. O coordenador garantiu que, mesmo com os desafios, todos os bairros receberão o serviço de coleta até 2033.
Em relação à falta de planejamento público apresentada pelo professor Edmar Pinheiro, André Ramos explicou que a Ambiental não trabalha diretamente com o Plano Diretor do Município, esse papel seria realizado pela Cagece. Mesmo assim, ele afirmou que a companhia dialoga com a secretaria municipal para a expedição de alvarás e para definir quais ruas receberão serviços da Ambiental.
“Existe sim uma sinergia, entre os entes, mas de forma mais direta é a própria CAGECE”, detalhou.
O coordenador finalizou ressaltando que Juazeiro do Norte já possui 16.000 casas localizadas em áreas atendidas pela rede coletora de esgoto, mas ainda não conectadas. Ele pediu a conscientização das cerca de 50.000 pessoas que vivem nessas residências para que façam a ligação de seus imóveis à rede.
O que diz a prefeitura de Juazeiro do Norte?
O Caririensi entrou em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria de Infraestrutura de Juazeiro do Norte para questionar os problemas relatados no bairro Pedrinhas. A reportagem perguntou sobre o córrego que cruza a Travessa Ana Maria e atrapalha a mobilidade na região, assim como a situação em frente à casa de Cícero Batista. Além disso, a falta de calçamento e meio-fio na rua Projetada foi abordada. Por meio de nota, a pasta informou que irá avaliar a situação dos trechos apontados.
“As solicitações serão encaminhadas ao setor técnico de Infraestrutura, que realizará a análise necessária para avaliar as condições locais e a viabilidade das intervenções,” disse a pasta.
Como mencionado anteriormente, o professor Edmar Pinheiro afirmou que a gestão de Juazeiro do Norte possui um bom Plano Diretor Municipal. No entanto, ele não é aplicado porque ainda não foi aprovado pela Câmara Municipal. Atualmente, o plano seguido é de 2000, enquanto o documento citado pelo professor é de 2023, elaborado em parceria com a Universidade Federal do Cariri (UFCA). A informação foi confirmada pela Secretaria de Infraestrutura do município.
“As construções atualmente são historicamente definidas pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de 2000, ainda vigente enquanto a nova revisão não é votada pela Câmara Municipal,” escreveu a pasta.
A nota ressaltou a importância do PDDU, que estabelece os parâmetros básicos que orientam o desenvolvimento da cidade. O plano regulamenta a construção de edificações na cidade, com critérios obrigatórios sobre a estrutura e sobre os locais onde são construídas. Além disso, são indicados os tipos de atividades permitidas em cada região, como residencial, comercial, mista ou de preservação.
“O plano estabelece normas para parcelamento do solo, abertura de ruas, loteamentos, expansão urbana e infraestrutura mínima necessária para novos empreendimentos. As diretrizes buscam organizar o crescimento da cidade, evitar ocupações irregulares e garantir que as construções sigam padrões técnicos adequados para circulação, saneamento e mobilidade”, diz a nota.
Especialistas são unânimes em afirmar que o PDDU está defasado, visto que já conta com 25 anos. O novo documento, que aguarda aprovação na Câmara, possui princípios de sustentabilidade, mobilidade urbana e planejamento de longo prazo atualizados, que podem melhorar o desenvolvimento do bairro Pedrinhas e de outras localidades que ainda sofrem com o crescimento desordenado, o qual avança sobre áreas de nascentes e matas destruídas.
✍️ Por: Renato Mendes