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Defender a redução da jornada de trabalho é defender a família!(OPINIÃO)

Imagem: Reprodução/ Redes Sociais 
Por Sued Carvalho
Recentemente li sobre a luta da Associação de Pais, Amigos e Profissionais dos Autistas do Cariri (Ama Cariri) pela redução da jornada de trabalho para servidores públicos pais de crianças e adolescentes autistas em Juazeiro do Norte e Barbalha, dois municípios que, na contramão dos vizinhos, ainda não implementaram essa mudança, e comecei a refletir sobre a relação entre a carga horária de trabalho e as relações entre pais e filhos.
Sou professora de ensino médio e é comum ouvir dos pais em épocas de fim de bimestre que não poderão comparecer as reuniões devido ao trabalho, pois o “patrão não libera”. Esse é apenas um exemplo de como a carga horária de 8 horas de trabalho interfere nas relações entre pais e filhos e impede a plena participação dos genitores na educação das crianças. Sem levar em conta que essa jornada de 8 horas, muitas vezes, não é respeitada, ficando os funcionários por 9, 10 horas no serviço, pagando horas extras indevidas.
Os conservadores afirmam que a empregabilidade da mulher é responsável por isso, pois, argumentam, se a mãe estivesse em casa, cuidando dos filhos e sendo uma dona de casa zelosa enquanto o marido está no trabalho, as crianças teriam a assistência devida. Isso é um absurdo: As mulheres devem ter direito ao emprego e ao estudo tanto quanto os homens, portanto a existência de creches em tempo integral e a redução da jornada de trabalho, para que os pais possam passar mais tempo com a família, sem restrição de direitos.
A AMA Cariri luta para que os servidores públicos de Juazeiro possam ter redução de carga horária caso tenham filhos no espectro autista, uma luta nobre que devemos apoiar, mas que leva ao questionamento: Os servidores públicos são 5,6% da população cearense (IBGE), portanto uma pequena parcela dos trabalhadores terão direito a acompanhar seus filhos autistas com mais atenção? E os trabalhadores da iniciativa privada? Essa é uma questão que está para além da Alçada da AMA Cariri, é um questionamento para o poder público!
Podemos estender o direito para os trabalhadores em geral, alguns poderão dizer, mas é importante relembrar que a razão da iniciativa privada não é o bem comum, mas o lucro de uma pessoa ou uma minoria de pessoas, retirado do trabalho dos funcionários e funcionárias. Quanto mais tempo um funcionário e funcionária trabalha, maior lucro pode ser retirado dele/dela. Caso os pais de crianças autistas ganhassem esse direito no mercado de trabalho privado, a tendência seria a demissão ou marginalização desses trabalhadores do mercado de trabalho. Os patrões evitariam contratar genitores e responsáveis por crianças no espectro autista.
Como resolver, então, esse imbróglio? Diminuindo a jornada de trabalho em geral. A carga horária de seis horas diárias para todos os trabalhadores estenderia aos pais de crianças e adolescentes autistas do setor privado também o direito de acompanhar seus filhos, assim como possibilitaria uma vida familiar mais presente e saudável a maioria da população brasileira.
Os trabalhadores têm direito a ter uma vida familiar ativa, direito que lhes é retirado quando só podem ver seus filhos de noite ou no final de semana, são impedidos de participar de eventos escolares e reuniões bimestrais. Situação que se agrava quando a criança é portadora de deficiência ou está no espectro autista, isso sem falar de trabalhadores que tem pais idosos que requerem, também, atenção.
Quem afirma defender a família, mas não fala na redução da jornada de trabalho ou é mentiroso ou é hipócrita!
Mas isso irá destruir a economia! – Vocês podem, justificadamente, exclamar. Desde a revolução industrial se diz isso. No início do Século XIX os trabalhadores tinham cargas horárias superiores a 16 horas por dia, lutaram pela redução para 12, depois 10, depois 8 horas, sempre sob protesto dos grandes empresários, que afirmavam que isso “destruiria a economia”. Nunca destruiu, não destruirá agora.
O avanço da tecnologia possibilita que os trabalhadores produzam mais em menos tempo. Produz-se em 8 horas hoje o dobro ou o triplo do que se produzia no mesmo tempo 20 anos atrás, no entanto só aumentaram-se os lucros dos patrões, não o tempo de descanso dos funcionários, que permanece o mesmo.
É hora de fazer o avanço tecnológico servir, finalmente, para os trabalhadores e trabalhadoras. A vida é mais do que labutar.  
 

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