Ilustrativa
Por Matheus Linard
Não é de hoje que grupos políticos utilizam a desinformação como arma em guerra política, vale tudo para que a narrativa emplaque e os objetivos sejam alcançados.
Em 2014, diante da ultrapassagem de Marina Silva, que por alguns dias chegou a superar Dilma Rousseff nas pesquisas de intenções de voto para a Presidência, João Santana percebeu que somente um protocolo bem elaborado de desinformação conseguiria frear a ascensão da ex-seringueira.
Foi assim que nasceu a icônica propaganda que aparece banqueiros ricos gargalhando e tirando a comida da mesa do pobre caso Marina seja eleita. Carros de som financiados pelo PT rodaram nos grotões desse Brasil adentro, espalhando que Marina iria acabar com o bolsa família, minha casa minha vida e toda a rede de proteção social vigente nos governos do PT. O resultado vocês já conhecem, Marina derreteu e ficou de fora do segundo turno.
Em 2018, com a proibição dos carros de som pela legislação eleitoral, o WhatsApp ganhou o protagonismo como veículo para aqueles que pretendiam desinformar a população e emplacar suas agendas, mas foi a campanha de Jair Bolsonaro, quem melhor soube explorar a ferramenta que já tem 120 milhões de usuários e é o principal meio de comunicação da nossa era.
Através do fenômeno social conhecido como “tios do zap”, o bolsonarismo arregimentou uma legião de 300 mil pessoas dispostas a compartilhar qualquer coisa que chegue pelos grupos da rede paralela. Essas 300 mil mandam para mais pessoas, que mandam para mais pessoas e aí forma-se uma verdadeira teia de desinformação. Quem aqui nunca recebeu uma mensagem de parente, amigo ou completo desconhecido falando sobre o Presidente, sua luta contra os cavaleiros do apocalipse, o STF, o congresso, enfim, sua agenda?
Quando o protocolo de Medidas Ativas (Active Measures) foi criado em 1920, os generais do serviço secreto Russo sabiam que as guerras do futuro não seriam travadas inicialmente nas ruas, mas nas mentes. E que não bastava simplesmente mentir, o protocolo é muito mais elaborado que isso. Envolve manipulação da mídia, mentiras que parecem verdade e até mesmo graus variados de tortura psicológica e violência.
Aqui no Brasil, tanto o petismo, quanto o bolsonarismo adotaram apenas as mentiras e a manipulação da mídia. E o ataque irascível aos veículos de comunicação que foram incapazes de manipular.
O PT, através de patrocínios estatais, financiava blogueiros, jornalistas, influenciadores e até mesmo artistas eram cooptados através de financiamento público e tornavam-se embaixadores da causa do partido.
Bolsonaro, através de patrocínios estatais, financia blogueiros, jornalistas, influenciadores e até mesmo artistas, por meio de contratos com o governo.
E ambos odeiam a Globo!
Em tempos de pandemia, todo cuidado com informações é pouco. Uma notícia mentirosa pode custar uma vida ou várias e foi exatamente esse o motivo que me levou a escrever a coluna de hoje, caro leitor.
A rede bolsonarista utilizou sua teia midiática, paralela e institucional para criticar isolamento social, defender remédios sem eficácia, desacreditar vacinas e espalhar uma série de informações tiradas de contexto sobre a pandemia do novo coronavírus.
Dia desses, minha mãe recebeu no WhatsApp uma corrente, enviada por uma amiga médica bolsonarista, em que dizia que você não pegava o vírus pelo ar ou em contato com superfícies, mas por fluídos corporais e que não era preciso higienizar as compras ao chegar em casa, bastava lavar as mãos.
Ela começou a repassar a notícia para as outras amigas, pois veio de uma médica (alguém que confia) e tinha a sigla CDC (Control Disease Center) na mensagem.
Eis que outra amiga, ao receber a corrente, faz a correção, citando o estudo do CDC e mostrando que mesmo o risco sendo baixo, ele existia.
Depois desse dia, toda notícia que chega por corrente minha mãe questiona quem enviou, olha no google, checa a veracidade e se for confirmada, só então ela compartilha com seus contatos.
Assim como minha mãe, milhões e milhões de brasileiros recebem toda a sorte de informação pelo WhatsApp, e como geralmente vem de pessoas conhecidas e que confiam, repassam acreditando ser verdade.
As próprias Medidas Ativas, seja da URSS, seja do petismo ou bolsonarismo não se tratam de mentiras grotescas, as boas fake news possuem alguns elementos de verdade e é esse o apelo que faz com que não questionemos de cara, a não ser que sejamos treinados para duvidar.
Somos ‘believers’, somos ensinados a acreditar desde criancinha, seja no papai do céu, seja na divindade que te ensinaram a cultuar e as pessoas farão qualquer coisa por aqueles que encorajem seus sonhos, justifiquem seus fracassos, acalmem seus medos, confirmem suas suspeitas e ajudem a atirar pedras contra seus inimigos.
Mas assim como a minha mãezinha querida, você, meu querido leitor, pode ser um agente contra a tirania dos “tios do zap”: duvide, duvide sempre. Duvide inclusive das certezas que você pensa que tem. Pois só mesmo quando confrontamos nossa própria visão de mundo é que sabemos se ela se manterá de pé mesmo se deixarmos de acreditar. Se ela ruiu, então estávamos errados desde o princípio.
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