Por Matheus Linard
Vou iniciar a coluna de hoje pedindo perdão aos leitores do Cariri En Si pelo atraso, meu dia de escrever nesse espaço é terça-feira, mas como eu resolvi falar sobre a CPI da pandemia e, decidi esperar a primeira semana de depoimentos e analisar como as falas de Mandetta, Teich e Queiroga impactaram a política do país. Espero que me perdoem e vamos ao que interessa!
Após atingirmos a catastrófica marca de 400 mil mortos pelo vírus SARS-CoV-2, e sob protestos da oposição que tentou a todo custo sabotar a instauração da CPI, ao querer incluir mais de 5 mil prefeitos e 27 governadores em seu escopo, a Comissão Parlamentar de Inquérito que apura as ações e omissões do Governo Federal no combate à pandemia, finalmente iniciou os trabalhos na segunda.
Para vocês entenderem a cama de gato em que o Presidente se encontra, pense na CPI da Pandemia como o Big Brother Brasil da política brasileira.
Todas as atenções estão voltadas para os detalhes e meandros de tudo que já sabemos, mas no BBB, uma comentário sobre cabelo vira racismo velado, tudo tem peso 1.000, então as declarações que já conhecemos, como a insistência em tratamentos ineficazes, o boicote à vacina, a falta de planejamento e a falta de liderança, ressoará com muito mais intensidade na nossa sociedade. E isso está tirando o sono de Jair Bolsonaro e seus aliados, que enxergam a reeleição em 2022 cada vez mais distante e o início da debandada de antigos aliados políticos.
O PSD, partido de Gilberto Kassab, que tem a fama de ser fisiológico e formou em 2020 um “acordão” de sustentação política com o governo, ensaia pular do barco e apresentar candidatura própria ou até mesmo apoiar Lula.
Os depoimentos dos ex-Ministros Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e até mesmo do atual Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, provocaram um verdadeiro terremoto no cenário político do país e as peças do xadrez das eleições do ano que vem começam a se posicionar contra Bolsonaro.
Que houveram erros no enfrentamento da covid por parte do governo federal, nem o bolsonarista mais ferrenho conseguirá discordar, pode até não assumir publicamente, mas lá no fundo da sua mente, ele tem plena consciência do caos provocado pela falta de liderança do Presidente.
Até mesmo o general Luiz Eduardo Ramos, Ministro da Casa Civil, listou 23 acusações graves e críticas ao governo federal, inclusive cobrando explicações aos Ministérios, como mostra a imagem abaixo.
Dentre elas as duas maiores acusações, responsáveis diretas pelo estrondoso número de vítimas fatais do coronavírus: o boicote à Coronavac que atrasou demasiadamente o processo de imunização e a proliferação de fake news que usou tanto as estruturas paralelas do bolsonarismo, quanto instituições de Estado, na disseminação irrefreável de informações falsas a fim de defender o desastre que foi a condução do chefe do poder executivo, no capítulo mais tenebroso da nossa história.
Foram 11 as vezes em que o Governo Federal recusou a compra do único tratamento precoce que existe, como Mandetta disse em seu depoimento à CPI, a vacinação no Brasil poderia ter iniciado em novembro, se o contrato de compra tivesse sido assinado em julho, o Brasil teria iniciado seu plano nacional de imunização com 60 milhões de doses ainda em 2020.
Isso sem contar com os entraves que a vacina recebeu na ANVISA, é uma questão que a CPI precisará responder: afinal, houve ou não interferência do Presidente na Agência Nacional de Vigilância para atrasar a vacina chinesa?
Nelson Teich, que sucedeu Mandetta no comando do Ministério da Saúde, disse o óbvio: saiu do governo porque o Presidente queria mudar a bula da cloroquina, para indicá-la no tratamento para covid. Ali ficou claro que ele não teria autonomia nem mesmo para concluir as tratativas com os laboratórios internacionais que estavam produzindo vacinas.
Foi sob a breve gestão de Teich que o governo brasileiro iniciou tratativas para adquirir AstraZeneca/Oxford, Pfizer, Moderna, Johnson e até mesmo a Coronavac do Instituto Butantã. Teich sabia que seria um erro apostar em apenas um imunizante, para um plano de vacinação em massa ele precisaria ter milhões de doses disponíveis e a garantia de que outras milhões chegariam em tempo hábil.
Mas a gestão de Bolsonaro preferiu apostar em um medicamento sem eficácia e que alavancou em 358% o consumo da cloroquina produzida por 5 laboratórios brasileiros, cujos donos são aliados do Capitão.
O agora ex-Ministro Eduardo Pazuello, que ascendeu ao cargo após a renúncia de Teich, disse ter tido contato com pessoas que testaram positivo para covid e não poderia ir., seu depoimento ficou para 20 de maio.
Aliás, o depoimento do general que comandou o Ministério da Saúde durante os piores momentos da pandemia e que foram agravados pelo seu total despreparo para conduzir a pasta, é o mais esperado de todos.
Ele, cinco de seus auxiliares e o Secretário de Saúde do estado do Amazonas respondem a um processo movido pelo Ministério Público Federal por responsabilidade na crise de abastecimento de oxigênio em Manaus, que levou a cidade a experienciar um terror nunca antes visto.
São várias as perguntas que a CPI precisa responder e é muito cedo para dizer se ela vai indiciar alguém, se abrirá caminho para o impeachment ou afastamento por crime comum, mas mesmo que não dê em nada, já que a maioria das CPIs têm fama de acabar em pizza, o brasileiro tem o direito de saber o que realmente está por trás das decisões erráticas do governo que transformou o país num covidário e celeiro de novas cepas, cada vez mais agressivas e contagiosas.
É impossível que alguém escolha de livre-arbítrio tomar todas as piores decisões possíveis numa crise desse porte. E a mais importante de todas, quantos cidadãos, um parente seu, um amigo, uma celebridade, quantas pessoas foram vítimas diretas do atraso da vacinação?
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