O paradoxo da intolerância: como estamos nos tornando menos humanos ao combater o ódio com mais ódio (OPINIÃO)

 

Ilustrativa

Por Matheus Linard
O ex-Juiz da Suprema Corte Americana, Antonin Scalia, falecido em 2016, tinha uma máxima: “eu ataco ideias, não ataco pessoas. E algumas boas pessoas possuem algumas ideias muito ruins”.
Não é de hoje que a polarização política extrapola o limite do campo das ideias e rompe o campo pessoal, as pessoas que defendem ou não enxergam nenhum problema nesse tipo de comportamento se apoiam no paradoxo da tolerância, do filósofo Karl Popper em que ele fala que está tudo bem em você odiar aquilo que odeia, pois se você odeia algo odioso, o seu ódio é tolerável. Então se você não gosta de Bolsonaro ou Lula por ideias, comportamentos e até visões de mundo, que você considera odientas, o seu ódio será perdoado.
Então foi com base nesse paradoxo que um neurocirurgião, após saber informações do quadro de saúde de Marisa Letícia, ex-primeira-dama do País, discutia com seus pares como fazê-la ‘abraçar o capeta’. “Esses F.D.P vão embolizar ainda por cima”, disse ele sobre o procedimento para provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o fluxo de sangue em determinado local.
Em seguida, e continuou: “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila e o capeta abraça ela”.
Também com fulcro nas ideias do filósofo austríaco que milhares de pessoas comemoraram a facada no então presidenciável Jair Bolsonaro em 2018 e lamentam até hoje que Adélio Bispo não tenha girado a faca e conseguido completar seu objetivo.
Como eu disse anteriormente, odiar algo odioso anula seu ódio. Lógico, segundo Karl Popper e seu paradoxo da tolerância, que me parece muito mais um paradoxo da intolerância. Não se combate fogo com fogo. Se uma casa está em chamas, não é com um lança-chamas que vou acabar com o incêndio. Então por qual motivo eu obteria sucesso ao combater o ódio com mais ódio?
Ontem pela manhã, Bruno Covas, um dos políticos mais brilhantes de sua geração e o mais jovem prefeito de São Paulo, perdeu a batalha que travava há dois anos contra o câncer.
Covas foi um gigante, administrou a maior cidade da américa latina em seu período mais tenebroso e impediu que o sistema público de saúde municipal  entrasse em colapso. 
Mesmo muito doente, enfrentou uma campanha pela reeleição e venceu com larga vantagem sobre seu oponente, Guilherme Boulos do PSOL. 
Em um dos discursos mais contundentes de Bruno Covas, ele defende a possibilidade de se fazer política sem ódio. Logo ele, que teve a vida atacada por torrentes de ódio da esquerda à direita, e até mesmo o seu câncer foi politicalizado. Muitos militantes de esquerda, sindicalistas e corporativistas, comemoravam cada nova internação de Covas, pois tinham nele um inimigo da classe. Até mesmo festejaram sua morte, assim como festejaram e festejam a morte de Margaret Thatcher até hoje.
E eu sinto dizer, caro leitor, que esse cenário dantesco, de se comemorar câncer, morte, discutir como matar e lamentar que não tenha morrido, só mostra o quanto estamos falhando enquanto humanidade.
Defendemos o princípio da dignidade da pessoa humana para aqueles que gostamos, que sentimos empatia, mas para nossos inimigos queremos a morte, o estado de exceção, o direito penal do inimigo.
É como se a cada passo dado em direção ao paradoxo da intolerância, perdêssemos um pedaço da nossa alma e nos tornássemos menos humanos e mais ódio.
E não podemos, sob hipótese alguma, sermos invadidos e governados pelo ódio.
Não é no campo pessoal que provamos por a + b que as ideias de Lula, Bolsonaro, Covas, Thatcher ou de quem quer que seja, são ruins. É no próprio campo das ideias. Um argumento, ele se prova forte quando confrontado por outros e permanece de pé. Se todos os ângulos e brechas foram explorados e ele continua sólido, sinal que você possui um argumento forte nas mãos.
Não é através do ódio e do desejo da morte alheia, que você comprovará que sua visão de mundo é a melhor. E sinto muito te dizer, se você precisa recorrer a ataques pessoas e esse expediente nefasto, talvez você não tenha competência nem mesmo para defender o que acredita. 
Espero que a coluna de hoje tenha feito você refletir e que a partir de hoje, seja você católico ou não, acredite em Deus ou não, siga os ensinamentos da Oração de São Francisco: Onde houver ódio, que eu leve o amor.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal Cariri En Si

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