José Boaventura Filho- Professor/Advogado
Assistimos todos, estupefatos, a publicização das ameaças contra o Governador Camilo Santana.
De certo que as medidas de isolamento rígido são um remédio amargo,mas são necessárias para frenar a curva ascendente de contaminação e morte pela COVID-19 em nosso Estado.
Opiniões políticas à parte, desconhecer o esforço do Governador Camilo em conter o alastramento da COVID-19 no Estado do Ceará, seja formando comitê de crise desde a primeira hora até seguir as melhores práticas científicas,com as amarras legais do nosso federalismo, e ainda com restrições econômicofinanceiras, é mais do que um simples exercício de oposição, tão salutar em uma democracia, é desonestidade intelectual.
Isso, não bastassem as fake news que brotam como praga nas redes sociais, misturando a má-fé de quem as produz, com a boa-fé de quem acredita na primeira notícia que vê, ainda que não possa conferir a credibilidade da fonte,ou que lhes seja apresentada uma mentira absurda.
No entanto, hoje superamos toda a razoabilidade. É o ápice da necropolítica ameaçar um Gestor de morte, simplesmente por discordar de sua gerência. Recrudescemos algumas centenas de anos em nosso processo civilizatório, e retomamos à autotutela, aonde a força bruta supera a força da lei.
De certo que a população tem sido induzida a acreditar que a contenção do vírus e a economia são inconciliáveis, e isso tem levado ao desespero os que estão mais suscetíveis socialmente. No caso, uma renda mínima deve ser garantida a essas populações, a exemplo do que acontece no resto do mundo, até que a crise sanitária esteja de fato contida.
Entretanto, mesmo nessa ambiência, é preciso distinguir as ações de oposição legítima às ameaças, que devem ser veementemente reprovadas socialmente e investigada pelas forças de segurança na forma da lei.
Infelizmente a política brasileira tem perdido espaço para a beligerância, para um enfretamento que beira a bestialidade. Todo o ranço de classe, de racismo, misoginia, questões fundamentais na sociedade brasileira e nunca enfrentadas devidamente, têm aflorado e acalorado as discussões políticas, e utilizadas por alguns políticos como verdadeiras bandeiras. Não sem propósito,
tem surgido uma nova casta de “cidadão de bem”, armada e pronta para o combate, está ai para “combater o inimigo”, a qualquer custo e sob qualquer preço.
A ameaça ao Governador é fruto desse caldo. E nesse aspecto transcende sua pessoa física, que deve obviamente ser protegida em todos as suas dimensões, mas é antes, uma ameaça à própria Democracia, esse instituto tão importante quanto sutil, e que exige de cada um de nós vigilância permanente.
A escalada da necropolítica é visível, é chegada a hora de combatermos de frente a questão, denunciando claramente quem a prática, evoluindo os meios jurídicos e processuais, para alcançar tais agentes.
É preciso ser intolerante com a intolerância, só assim escaparemos desseambiente violento que tem se tornado a política brasileira nesses tempos sombrios.
No dizer de Karl Popper1: “(…) tolerância ilimitada levará ao desaparecimento da tolerância. Se estendemos tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes, se não estamos preparados para defender a sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, juntamente com a tolerância”.
É passada a hora de sermos todos intolerantes!
