Na primeira entrevista após deixar o cargo, ele relembra os momentos de pressão e defende o fim da política “clientelista” na Saúde Foto: Helene Santos Ex-secretário da Saúde do Estado, o médico Carlos Roberto Martins Rodrigues, o Dr. Cabeto, quase dois meses após deixar o cargo, destaca avanços na política de Saúde do Ceará potencializados durante a pandemia e diz estar convicto de que não haverá retrocessos “porque as pessoas entenderam o modelo”. Citado como possível candidato pelo PSDB do Ceará nas próximas eleições, Cabeto diz não ser esse o seu plano, mas admite que poderá discutir primeiro os “conceitos” e depois entrar no debate de nomes. Na primeira entrevista desde que deixou o cargo em agosto passado, concedida na manhã da última quinta-feira (14), Dr. Cabeto relembra as pressões por conta da adoção de políticas como o lockdown, os protocolos médicos, as divergências internas no Governo e detalha o projeto de regionalização da Saúde, que considera o maior ganho da gestão. Ele comemora o sucesso do primeiro concurso para a Funsaude, com cerca de 160 mil inscritos, e reforça a necessidade de o Ceará reter talentos. “A ideia foi concebida a várias mãos. Não foi o secretário da saúde que negociou na Assembleia. Foi pra Assembleia porque havia unanimidade. O próprio governador divulgou a Fundação, o concurso, acredita no processo. Eu acho que, quando você faz isso de uma maneira transparente, democrática, isso não permite retrocesso”. Ele defende uma reformulação do SUS, para atender às novas demandas da população e cobra continuidade das políticas que deram certo. Confira a entrevista: DURANTE DOIS ANOS E SETE MESES O SENHOR EXERCEU O CARGO DE SECRETÁRIO DE SAÚDE DO ESTADO. QUAL A AVALIAÇÃO QUE O SENHOR FAZ DESTE PERÍODO, PRINCIPALMENTE EM VIRTUDE DA COVID? Em 2020 e 2021 a maior parte da minha participação na Secretaria da Saúde se relacionou ao período da pandemia. Mas como nós estávamos estruturados com projetos, nós apresentamos, em 2019, um projeto que inclui o estado numa política nova de saúde, chamado Plano de Modernização da Saúde do Ceará. A primeira coisa é a questão da ocupação dos cargos públicos. Nós encontramos uma Secretaria com pessoas sofridas, inseguras, com dificuldade de estabelecer ascensão funcional pelo mérito, com ausência de critérios pra mérito… E isso foi uma preocupação. Porque, desde o início, todos esses projetos foram montados pra valorização das pessoas. Então, se eu tiver que focar o programa Cuidar Melhor – porque eu acho o ato de cuidar representa o que deve ser a saúde. E cuidar do seu, no sentido mais amplo. Um indivíduo que mora na cidade, cuidar do indivíduo que mora no interior, cuidar a ocupação urbana, cuidar na saúde, cuidar da prevenção, cuidar da doença aguda, cuidar da doença crônica, cuidar do trabalhador. Então isso tudo foi contemplado. Isso nós desenhamos em 2019. Embora tenha acontecido, em seguida, uma pandemia, nós estávamos com os projetos todos prontos, por isso tudo evoluiu muito. Então tudo que estava desenhado, e não foram poucas ações, evoluiu mesmo no período da pandemia. De forma que, se eu tivesse que centrar numa coisa, em que todas as ações estão ligadas, esta é a questão da regionalização. A política de regionalização da Saúde do Ceará não permite retrocesso. Isso foi um grande ganho do cidadão cearense. Por quê? Porque, quando você estabelece uma política de regionalização, o primeiro ponto de você ter conformidade ética, jurídica e política é estabelecer equidade. “Colocar recurso no lugar onde precisa mais, baseado em critérios, é uma grande inovação. Isso faz com que cada região se organize pra ser autossolucionável na questão da saúde. Nós tínhamos regiões que dependiam quase que 90% de Fortaleza” Isso já é um legado estabelecido. Independentemente do que aconteça, a partir de agora, é algo que não permite retrocesso. Porque já é uma realidade, as pessoas começaram a se acostumar, a respeitar uma fila… O cidadão lá da ponta entende que ele não precisa pedir um favor ao prefeito pra marcar uma consulta, isso precisa ser ampliado, mas eu acho que essa marca ela foi colocada de uma maneira muito clara, apesar de ter havido uma pandemia no período. O SENHOR FALOU MUITO EM NÃO HAVER RETROCESSO. ACHA QUE HÁ RISCOS? Eu não acredito, porque este foi um projeto pactuado com todo mundo. A gente fez em conjunto. A sociedade comprou a ideia. As pessoas se sentem responsáveis pelo projeto. Veja aí a valorização do trabalho. Não tem como retroceder uma ascensão funcional que nunca tinha acontecido e que aconteceu 11 anos em dois. Está acontecendo, finalizando. Um plano de salários que nunca tinham existido pra algumas categorias e está pronto, deixei pronto na Secretaria. Valorização de premiação por desempenho que foi universalizada pra todos. Uma fundação pública que nasce com critérios de independência. É fundamental que, dentro da gestão pública, o Estado seja um bom contratador, mas ele exija qualidade. Por outro lado, quem faz a má gestão, que assuma a responsabilidade. Fundação é um grande modelo de atração de talentos do Ceará. A gente precisa fixar e atrair talentos. Está aí um concurso com 160 mil inscritos, cujos salários são altamente competitivos, reais, que nasce com a proposta de resgatar a valorização do trabalho no estado do Ceará. Nós estamos falando aqui de ascensão funcional, de cargos e salários, gratificações, contratações com mais isonomia. A ideia foi concebida a várias mãos. Não foi o secretário da Saúde que negociou na Assembleia. Foi pra Assembleia porque havia unanimidade. O próprio governador divulgou a Fundação, o concurso, acredita no processo. Eu acho que, quando você faz isso de uma maneira transparente, democrática, isso não permite retrocesso. Se tem um legado que que pode ficar aí é a visão de que, em primeiro lugar, estão as pessoas. O Ceará é um grande formador de talentos e precisa retê-los. E tentar atrair mais pra melhorar essa regionalização que foi iniciada. O QUE QUE O SENHOR ACHA QUE FICA DE LEGADO