1º de março: Juazeiro de Maria e o Milagre de Juazeiro(OPINIÃO)
Imagem: Reprodução/ Redes Sociais Por Luciana Dantas No primeiro dia do mês de março o povo Cariri rememorou com o povo romeiro o dia do Milagre de Juazeiro, protagonizado pela Beata Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo. São 134 anos de resistência e enfrentamento a uma maciça empreitada para invisibilizar o protagonismo da Beata Maria de Araújo referente ao conhecido Milagre de Juazeiro e a 1ª Romaria da Terra da Mãe de Deus. Maria era de Juazeiro antes mesmo desse território receber esse nome, nasceu nessas terras no ano de 1862, menina negra, filha de um Brasil no qual ainda vigorava a escravidão. Os mais antigos contavam que a Beata Maria quando criança dizia brincar com um menino de luz, o menino Jesus. Falavam ainda que o menino Deus conversava com a menina Maria e lhe contava que um dia iria chegar aquele que seria seu mentor espiritual. Maria de Juazeiro cresceu e anos mais tarde conhece o Padre Cícero, vivenciando em Juazeiro do Norte um catolicismo popular, vivo, latente, que externalizava sua fé no cotidiano, dentro da comunidade, partilhando o que se tinha, da palavra, ao alimento ou água para matar a sede. Foi no dia 1º de março de 1889, que a Beata Maria de Araújo se dirigiu para comungar e, nesse momento, quando o Padre Cícero depositou a hóstia consagrada na boca da beata, esta entra em um tipo de transe, transmutando a hóstia em sangue. Tal fato repetiu-se mais de 100 vezes, algumas vezes a hóstia transmutava-se em carne, de modo a lembrar um coração, outras vezes a Beata Maria de Araújo aparecia com os estigmas de Jesus Cristo, além de episódios de levitação. Os fatos chamaram a atenção de todo o Nordeste brasileiro, em especial a Igreja Católica. Em 7 de julho de 1889 mulheres e homens vieram a Juazeiro do Norte, motivados pelo dito Milagre Esse é o marco da 1ª Romaria de Juazeiro do Norte, Romaria do Sangue Precioso. A igreja, em síntese, negou os fatos considerados miraculosos e ameaçou de excomunhão todo aquele que dissesse acreditar no chamado Milagre. O fato miraculoso fez desabrochar algumas teorias fundantes. Uns disseram que houve milagre sim, posicionamento defendido pelo Padre Cícero. Outros minimizavam e diziam ser um abuso com relação a Santíssima Eucaristia, caso da Igreja Católica daquele período. Tiveram aqueles que disseram que foi um embuste, mas nunca provaram. E, a mais recente, levantada pela parapsicóloga Maria do Carmo Pagan Forti, defendeu que os fatos miraculosos seriam o resultado da imaginação emotiva, influenciada pelo psiquismo da Beata Maria de Araújo. O fato é que de 1892 até 1914, após a transmutação da hóstia em sague, a Beata Maria de Araújo, viveu segregada, proibida de falar sobre os fatos que vivenciou, não podendo sair de casa por ordem da Igreja. Até o final de sua vida, em 17 de janeiro de 1914, a Beata Maria de Juazeiro foi perseguida e julgada, passando por dois Inquéritos da Igreja Católica, além de inúmeras consultas e exames com a finalidade de desmentir o fato miraculoso. Nunca conseguiram provar que não aconteceu o Milagre e a Beata faleceu em casa, meio a Guerra de 1914. Ela, a Beata Maria de Araújo, e ele, o Padre Cícero, nunca negaram e sempre defenderam que ocorreu o Milagre de Juazeiro. Sim, um milagre com uma mulher negra, beata leiga, costureira, artesã e pobre, do interior nordestino, que falava ter brincado com o menino Jesus quando criança, e que dizia conversar com Ele até seus últimos dias de vida. Após a morte de Maria de Juazeiro, em 1914, o Padre Cícero ordenou seu sepultamento na Igreja do Socorro. No entanto, no ano de 1930, com o argumento de uma reforma na Igreja, ordenada pelo Bispado, a Beata Maria de Araújo teve seu túmulo violado e seus restos mortais desapareceram. Até os dias atuais, nunca houve uma explicação para o que aconteceu em 1930 com o túmulo da Beata e seus restos mortais. O silêncio ecoa nas linhas pálidas da história juazeirense, do Cariri. E, apesar da Igreja Católica ter avançado quanto ao reconhecimento da importância, do protagonismo da Beata Maria de Araújo, nessa candeia viva que efervesce Juazeiro como território de fé e espiritualidade, faz-se necessária a presença de respostas, reparação e, sobretudo, reconciliação para rememorarmos a história dela, que remonta a nossa identidade sociocultural. Na Terra da Mãe de Deus houve um Milagre com uma mulher negra, pobre, beata leiga e analfabeta. Sim, as Romarias começaram com Maria, a Beata e Cícero, o Padre.E o grande Milagre é Juazeiro e todo o povo que aqui se permite o encantamento, a perseverança e o trabalho.
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