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Qual o preço da memória de um povo?(OPINIÃO)

Imagem: Reprodução/ Redes Sociais 
Por Luciana Dantas
O último domingo foi marcado pelos atos antidemocráticos de uma minoria raivosa em intensa crise distópica. Os três poderes da República sentiram o amargor de um 2023 que ainda reverbera o eco de um país que verte de um genocídio indígena, de um vertiginoso processo de escravidão, de uma sociedade machista, uma sanha opressora. Um Brasil republicano que é fruto de um processo de redemocratização pálido e injusto para com os que sofreram tortura, desapareceram e foram assassinados. Sim, uma redemocratização desbotada, sem a potência de uma justiça que responsabilizasse aqueles que sustentaram a fatídica ditadura eclodida em 1964. Os criminosos foram anistiados e, em pleno século XXI, ainda devemos reparação histórica e social para com os povos originários e negros desse país.
8 de janeiro é o dia mundial da alfabetização, conforme ONU e UNESCO. Em nosso país foi o dia do analfabetismo político, não “somente” aquele nas estrofes de Bertold Brecht, mas o que desabrocha de uma atuação motivada por um tipo simbiótico de falta de leitura, interpretação, reflexão, criticidade e, sobretudo, memória. Verdadeiros analfabetos políticos funcionais quiseram derrubar um governo democraticamente eleito, assim como os demais poderes constituídos, com o fito de implantarem um regime de exceção.
Mais que nunca é preciso o Estado brasileiro fazer com que os criminosos paguem e que todos lembrem que no Estado Democrático de Direito nossos direitos e garantias sustentam-se numa relação recíproca de respeito às instituições que basilam nossa República. Mais que nunca é preciso lembrarmos, agirmos e nunca esquecermos.
Séculos de memória e história foram afetados pelo ato anacrônico dos vândalos pseudonacionalistas que depredaram a Capital brasileira. Foram vandalizados, por exemplo: o Brasão da República; a pintura “As mulatas”, de Di Cavalcanti, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922; a tela “Bandeira do Brasil”, de Jorge Eduardo, de 1995; a Mesa de trabalho de Juscelino Kubitscheck; a escultura em bronze “Bailarina”, de Victor Brecheret, introdutor do gênero modernista na escultura brasileira; a escultura de parede em madeira de Frans Krajcberg; a escultura “A Justiça” de Alfredo Ceschiatti. Estão totalmente destruídos: a Galeria dos ex-presidentes; a escultura em bronze “O Flautista”, de Bruno Jorge; um relógio de Balthazar Martinot, do século XVIII, dado de presente à Dom João VI pela Corte Francesa (somente existem dois relógios feitos por esse artista no mundo), entre outros itens.
O saldo do fatídico domingo é a certeza de que parcela de nosso povo não compreende a violência do período ditatorial, nem o inestimável valor de vivermos em um país democrático. Desse moderno analfabetismo político nasce a destruição de nosso patrimônio cultural, pois existe um hiato que pede por reparação histórica e social, dado o período ditatorial e, antes disso, nosso processo de colonização.
Um fato indelével: Nós, enquanto povo e nação brasileira, saímos mais fortes do dia 8 de janeiro de 2023. Pode-se dizer que sinaliza um tempo de imperiosas reparações, mas sobretudo do fortalecimento de nossa República.
Sobre o preço da memória. Bom, não pode ser valorado pelos danos causados em Brasília. A moeda corrente é a da responsabilidade política, histórica, cultural e social com essa e as gerações vindouras através de uma educação que liberte e uma justiça que puna com o rigor da lei todos, indistintamente, garantido o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Nosso país não foi descoberto em 1500. Mas com certeza a democracia que vivemos mostrou-se mais firme em 2023 do que nunca.

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